Ego, uma perspetiva budista

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No budismo, quando o Ego é referido, a palavra por vezes é mal interpretada devido aos seus múltiplos significados. O que querem então os budistas dizer quando se referem ao Ego?

“Ego” é uma palavra portuguesa ambígua com múltiplos significados, nós devemos ter cuidado como a usamos no budismo. O seu significado original, psicanalítico, refere-se a uma parte da mente que atua como mediador entre os instintos animalescos do id, os valores do superego e as demandas do mundo externo. Portanto, o ego é uma função psicológica neutra. Posteriormente, no seio da sociedade, o “ego” passou a ser referido como o Eu e, mais tarde, a um senso de Eu vaidoso e inflado. Nos círculos budistas, a palavra é usada com um significado depreciativo, mas raramente é realmente definida. Dessa ambiguidade, surge muita confusão.

Imagem a preto e branco do homem com os olhos fechados, tocando o reflexo no espelho.
A ignorância do auto-agarramento é contrabalançada pela meditação sobre a insubstancialidade (anatta). (Photo © Glebstock / stock.adobe.com)

Se considerarmos que o “ego” tem uma conotação negativa, pode referir-se à ignorância do auto-agarramento que é a raiz da existência cíclica ou à atitude egocêntrica que nos impede de desenvolver amor imparcial, compaixão e bodhicitta (altruísmo) por todos os seres sencientes.

A ignorância do auto-agarramento, é a ignorância que não só não é clara quanto à verdadeira natureza das pessoas e dos fenómenos (isto é, que eles são vazios de existência independente), mas também interpreta erroneamente a sua natureza, concebendo que ela existe sob o seu próprio poder, independentemente, a partir do seu próprio lado. A ignorância do auto-agarramento é contrabalançada pela meditação sobre a insubstancialidade (anatta) e deve ser eliminada, a fim de se alcançar tanto o nirvana de um arhat como o esclarecimento completo de um Buda.

O egocentrismo, por outro lado, não é a raiz da existência cíclica, apesar de certamente ser um combustível das nossas atitudes perturbadoras. É a atitude que acha que a nossa própria felicidade é mais importante do que a de todos os outros. Na sua forma grosseira, o egocentrismo vê a nossa felicidade comum como mais importante que a felicidade dos outros – faz com que procuremos um pedaço de bolo antes que alguém possa obtê-lo, a nos agarrarmos teimosamente às nossas opiniões e a ficarmos presos a sentimentos de culpa. Na sua forma sutil, a atitude egocêntrica busca a nossa libertação pessoal da existência cíclica sem ser compassivamente empenhada em levar outros a libertação. O egocentrismo deve ser eliminado para que se possa alcançar a iluminação completa e é neutralizado pela meditação sobre a equanimidade, amor, compaixão, as desvantagens do egocentrismo, os benefícios de amar os outros e a bodhicitta.

Podemos nos perguntar: “Porque fazer distinções tão picuinhas sobre o significado do ‘ego’ quando todos sabemos que é ruim e precisa ser eliminado?” Se não fizermos distinção entre a ignorância do auto-agarramento e o egocentrismo, não seremos capazes de identificá-los quando eles surgirem na nossa mente, nem seremos capazes de aplicar os antídotos adequados a eles.

Veja este post em inglês: Ego, A Tibetan Buddhist perspective

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