O que é cultura e o que é Dharma?

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Nestas entrevistas, gravadas por uma equipa do studybuddhism.com, a Venerável Thubten Chodron responde a questões sobre a sua vida e o significado de ser Budista no século 21.

Bhikshuni Thubten Chodron – What is Culture, What is Dharma?

Como se pode distinguir entre o que é cultura e o que é Dharma? É uma distinção que leva muito tempo a alcançar.

Fazer esta diferenciação, no meu entender, implica um período prolongado de envolvimento com o Dharma. Se assim não for, podemos começar a pensar “bem eu concordo com estes tópicos, por conseguinte isto deve ser Dharma”; mas, relativamente aos aspectos de que discordo, pensarei “isso deve ser cultura”. Certo? Então acabamos por fazer o que eu chamo de “deitar fora o Buda com a água do banho”, reformulando assim o Dharma, de acordo com a nossa opinião.

Tenho tido muita experiência nesta área, questionando-me sobre o que é Budismo e o que é cultura. Sou americana e pratiquei Budismo tibetano vivendo no seio da comunidade tibetana por muitos anos. Já conseguia estar sentada horas sem fim, aprendera alguns cânticos tibetanos, já sabia vestir as vestes monásticas, e estava a descobrir a cultura e costumes tibetanos, sabem, estava a integrar-me.

Então, em 1986, fui para Taiwan receber a ordenação de bhiksuni. Aí constatei que os chineses não permanecem sentados horas e horas, fazem os cânticos em pé e não os fazem em tibetano mas em chinês. Também não usam estas vestes, enquanto lá estive usei as vestes chinesas que têm uma forma de vestir totalmente diferente. O modo de andar e muitos outros aspectos na formação que recebi são muito, muito diferentes.

Permaneci em Taiwan dois meses, e passei muito tempo a reflectir sobre o que é cultura e o que é o Dharma, confrontando a minha experiência em Budismo tibetano, em Budismo Chinês e o facto de ser americana. Estava na presença de três factores. Como se integram?

Eu realmente, tive que reflectir muito sobre isto. Não é algo em que os asiáticos pensem muito, especialmente os tibetanos, porque nunca foram ocupados por forças ocidentais. Não tiveram uma educação de cariz ocidental, nem universidades, por isso, não têm disciplinas como antropologia, análise histórica, criticismo histórico, disciplinas que encontramos em universidades no Ocidente.

Os tibetanos não reflectem sobre o que é cultura e o que é Dharma porque muita da cultura tibetana fundiu-se com o Budismo e vice-versa. Portanto apenas pensam, isto é o que praticamos como Budistas tibetanos.

No meu caso, porque estudei Letras na universidade, tinha uma perspectiva diferente, olhava para estes aspectos tentando entende-los. Na verdade, demorou bastante tempo. É um processo em curso, não diria que já entendi tudo. Mas definitivamente posso afirmar que é um processo em curso, e algo que deve ser realizado com muito cuidado.

Penso que viver na Asia algum tempo ajuda bastante, pois por vezes, aqui no Ocidente, temos uma espécie de atitude colonialista, que considera que  podemos melhorar o que lá existe. Não é assim? Pegamos no Budismo e queremos melhorá-lo, eliminando toda a superstição, a devoção sem sentido, eliminando as fábulas, querendo tornar o Budismo cientifico.

Mas, teremos a capacidade para o conseguir fazer? Temos realizações espirituais suficientes de forma a poder distinguir o que é o caminho espiritual e o que é cultura? Ou estaremos a agir partindo do pressuposto “bem eu gosto do Dharma, e quero que seja mais congruente com o que eu já acredito, por isso vou apenas ajustar algumas coisas…”?

Temos nos confrontado com esta coisa do Budismo secular, mas na verdade penso que devemos ser cautelosos nesta área. Especialmente no que diz respeito ao renascimento, há pessoas a afirmar que o Buda não deu ensinamentos sobre este assunto.

Nas escrituras é muito evidente que o Buda ensinou o renascimento, é muito claro que este conceito faz parte do sistema budista. Mas isto significa que é preciso acreditar no renascimento para se poder beneficiar dos ensinamentos do Buda? Nada disso! Os ensinamentos do Buda podem ser benéficos quer se acredite no renascimento ou não. Mas, por exemplo, para gerar bodhicitta, penso que seria muito difícil sem um entendimento do renascimento. Aceitar o conceito de iluminação seria complicado se considerássemos o renascimento como algo asiático, não acreditando nisso, ou se formos agnósticos ou outra coisa deste género.

Não estou a dizer que temos que nos forçar a acreditar em assuntos nos quais não acreditamos, mas o que estou a dizer é que se houver coisas que no início não fazem sentido, em vez de as rejeitar liminarmente releguem-nas para segundo plano e voltem a contemplá-las de quando em quando, verificando se vão fazendo mais sentido à medida que aprofundam conhecimentos, praticam mais, e as vossas mentes se vão transformando. E não permitam que o vosso ego seja o arbitro decisor sobre o que é budismo e o que não é. Isso é perigoso. 

Este artigo está disponível em inglês: What is culture, what is Dharma?

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